quarta-feira, 28 de março de 2012

Morreu.




Como doi estar de luto por nós mesmos. Enterrar a sete palmos horas, dias e meses que pensávamos que apenas haviam passado, mas que na verdade morreram sem sequer direito a velório. E que não morreram de morte morrida, aquela que o tempo quem leva, mas de morte matada. Matada por alguém que sorria conosco e que prometia guardar na eternidade da lembrança momentos que pareciam ser o início daquilo que fez parte da construção de nossas vidas. Como se o hoje não dependesse do ontem, como se houvesse telhado sem parede e parede sem chão, buraco sem bordas daqueles que a gente cai. E não sai.

Que as orações aos deuses sirvam de inspiração para que, lá na entrada do paraíso, tanta violência gratuita seja perdoada. E que aqui, na terra, as lágrimas sirvam para aguar as flores que a gente ainda quer ver brotar e arrancar cada uma das pétalas torcendo pra que, no final, só nos reste o bem-me-quer.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Psiquiatria e sertão são os temas do primeiro livro de Marcos Padilha



Hoje, a partir das 17h, haverá o lançamento o livro "Os Carnúba" na Livraria Jaqueira, escrito pelo psiquiatra pernambucano Marcos Padilha.

O romance relata a história de duas famílias que desbravam o sertão e vivem a história do Brasil desde os tempos do Império até os dias de hoje. O livro, porém, também é história da alma humana, mostrando a evolução da psiquiatria com seus diagnóstivos e terapêuticas nos últimos duzentos anos. 

Marcos Antônio Padilha de Freitas nasceu no Recife em 1949. Formou-se em Medicina em 1972 pela Universidade Federal de Pernambuco. Psiquiatra e psicoterapeuta de longa experiência, é membro da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, Associação Brasileira de Psiquiatria e titular da Sociedade Paulista de Psicoterapia Analítica de Grupo. 

Data: 23 de março de 2012
Local: Livraria Jaqueira - R. Antenor Navarro, 138, Jaqueira - Recife/PE

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Angústia


É duro, mas metáforas foram feitas para serem pensadas, não vividas. Sintaxe da vida.


O pior sentimento do mundo não é a dor, não é amor. Porque amor a gente sente sem sentir. A dor a gente chora e não pode ver. Mas a frustração. É a impotência diante da perda tão investida, insistida, trabalhada, tentada, chorada, vivida. Começa aí o caminho pra frente ou pros lados sem retrovisor, só aquele que vem junto com a lembrança e escarna a ferida que dói a boca que não sabe o que dizer. E aí ser Ícaro pra quê? Ande a pé. Deixe que eles se tornem grossos o suficientes para passar pelas pedras sem sentir. Olhar pro chão é mais seguro que olhar pro céu. Eu escolho continuar andando sempre. Porque nasci sem asas. Que tal menos ao sol?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Comportamento anti-musical



Pé ante pé, a dança movimenta tantos pensamentos que sozinhos em luzes internas só criam sombras distorcidas, sombras que quase sempre são bem maiores ou bem menores que a realidade. Mas que graça haveria se nos víssemos em tempo real exatamente como somos? Felizes são os animais que não se reconhecem ao espelho e pensam interagir com aquele ser que lhes parece aquilo que tanto procuravam. Essa é outra história. O que importa não é a dança, mas a música que toca.

Quem dera pudéssemos escolher nossa trilha sonora para que dançássemos rumba quando a única coisa que se consegue ouvir é bossa nova. E como ninguém quer dançar fora do ritmo, dedilhamos o que nos vem à cabeça. Sequência definida: fá, mí, ré, dó -  percebida por muitos como o contrário daquilo que se espera, mas que não passou da mais pura sinceridade musical. Pés pisados. Narciso ainda não conseguiu atravessar o grosso espelho e  acertar os passos como bem queria. Ele se reconhece e ainda assim é o que tanto procurava. Animal e homem. Frustração. Resiliência. Rádio ligado e a tentativa de aprender a tocar e dançar além do que se quer e do que tanto se escolhe. Antena erguida, botão apertado, sintonia feita e qualquer seja a estação só uma música insiste em tocar: "se você disser que eu desafino, amor..."

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A chave que o outro entrega


Debaixo da gaveta ou dentro do tapede - difícil saber onde se escondeu a chave que a gente perdeu. Atormenta a necessidade constante de revirar aquela caixa e tentar entender um pouco o porquê do que acontece. Mas na chave que o outro entrega, num só movimento destampam-se segredos e uma ilusão de cores passa a pintar a miragem de nossas vidas. 

Começa, então.

Aquarela borrada e o traço mal definido, é a tela sempre em branco ansiando pela assinatura que nunca vem. Pandora da existência, fugiram pra longe as certezas do mundo que nós achávamos serem respostas, mas que só reticenciavam perguntas sem fim. Esperança que nunca fugiu, ainda há tempo de fecharmos essa caixa. Fechei. 


E a minha própria chave, provavelmente, esteve sempre ali, em cima da mesa.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Amar dói. Saudade constante também

Ele não estava mais intimidador, ele não estava mais imponente ao ponto de nos fazer pensar 20 vezes antes de abrirmos a boca para falar um sequer boa noite.

Ele estava com um astral acolhedor, os cabelos agora estavam grisalhos e o andar mais relaxado. Ele ainda fingia me ouvir mesmo quando eu me esforçava tanto para escolher cada palavra.
Eu insisti em segurar seu braço mesmo nós nos sentindo estranhos com isto, pela falta de intimidade.
E ele ficou preocupado no que as pessoas iam pensar quando o visse com uma garota nova como eu. Mas quando fomos nos despedir ele me olhou diferente com aqueles olhinhos azuis e eu não relutei mais contra o amor. Mesmo sabendo o quanto ele dói.

Me lembrei que não vou vê-lo mais por no mínimo seis meses.
E naquele momento eu podia entregar minha vida a ele. Chorei como se ninguém estivesse por perto. Foi mais forte que eu.

Foram tantos desgastes, dificuldades pela distância, pela correria em que ele vive e mesmo assim eu não consigo odiá-lo. Às vezes sinto raiva do destino.

Eu o amo incondicionalmente. Eu continuo sendo aquela garotinha que deitou em seu peito enquanto ele dormia só para sentir sua respiração, o subir e baixar da barriga. Subindo e descendo... me fazendo sentir tão segura e feliz.

Ainda te amo pai. Talvez mais ainda.
Com você eu fico em paz.
Só eu sei o quanto sofro por não fazer mais parte da sua vida.
Mesmo assim, obrigada por se esforçar em me dar o que você não pôde ter.

Bela vista

Não foi o subir do morro inclinado que me deixou sem fôlego.

Foi sentir meu coração batendo forte me dizendo que eu pertencia ali.

Eu vi ali um retrato da minha vontade tão tantas vezes enterrada em meio ás exigências que vem de fora de mim. Eu vi a liberdade nos olhos das pessoas que andavam de chinelo em meio a água suja sem nem se importarem, eu vi a luta sem medo de sangrar, de despentear, de perder o equilíbrio e rolar pelo chão.

Eu vi.

Obrigada por isso.